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Dom Sebastião, Éder e CR7 - 08/08/2016

Dom Sebastião, Éder e CR7: o Portugal 1 x 0 França na final do Euro 2016 - 08/08/2016

 

zeca marques

No dia 4 de Agosto de 1578, o então Rei de Portugal – o jovem e voluntarioso Dom Sebastião, com apenas 24 anos – aliou-se ao exército do sultão Mulay Mohammed, antigo monarca marroquino que pretendia destronar seu próprio tio, o sultão Abu Marwan Abdelmalik. Obviamente, diversos interesses comerciais estavam na origem dessa aliança entre Dom Sebastião e Mohammed, e seus grupos uniram-se para enfrentar o “inimigo” na batalha de Alcácer-Quibir, a qual também ficou conhecida como a “Batalha dos Três Reis”. Mas a ganância e a má organização das tropas resultaram numa derrota retumbante diante do grande exército liderado pelo velho Abdelmalik. 

Pior do que isso foi o desaparecimento de Dom Sebastião, cujo corpo não seria encontrado – em que pesem algumas versões que digam o contrário. O fato inconteste é que se criou uma crise dinástica na Coroa portuguesa, já que Dom Sebastião não tinha filhos. A catástrofe maior deu-se dois anos depois, com Portugal sendo anexado à Espanha em função da união das Coroas por meio de Filipe II de Espanha, tio de Sebastião. Findava assim, de forma melancólica, a Dinastia de Avis.

A megalomania e o expansionismo irresponsáveis de Dom Sebastião provocaram a quase falência da Coroa portuguesa e a perda da independência de Portugal (o que só foi retomado 60 anos mais tarde). Provocou ainda a criação do “mito do Sebastianismo”, movimento messiânico que, diante de uma realidade adversa, permanece à espera do surgimento miraculoso de um redentor. Muitos setores da sociedade portuguesa não acreditavam na morte de Dom Sebastião, e assim espalhou-se a lenda de que ele ainda estava vivo, apenas aguardando o momento mais adequado para reassumir o trono. O “Rei Encoberto” regressaria a Portugal numa noite de nevoeiro, para a redenção de todos.

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

(Trecho do poema “Terceiro”, do livro Mensagem de Fernando Pessoa).

Enredo semelhante a esse viveria Portugal na noite do dia 10 de julho de 2016, quando sua seleção de futebol Portugal entrava em campo no Stade de France, na região metropolitana de Paris, para enfrentar a França pela decisão do torneio europeu de seleções de futebol, a Eurocopa. Os anfitriões, amplamente favoritos, pareciam estar certos de que a vitória chegaria naturalmente. Aos portugueses, atrever-se a superar o adversário longe de casa poderia assemelhar-se à ousadia malograda e infeliz ocorrida 438 anos antes em Alcácer-Quibir. As tropas “inimigas” estavam em seu território, eram mais fortes e mais numerosas nas arquibancadas...

Mais de quatro séculos depois da débâcle de Dom Sebastião, Portugal enfrentava agora uma França cujo exército era formado por gauleses, mas também por mouros, árabes e africanos, como os que perfilaram em 1578: Dimitri Payet, Evra, Mangala, N'Golo Kanté, Matuidi, Moussa Sissoko, Umtiti, Bacary Sagna, Coman, Pogba, Anthony Martial, Steve Mandanda etc. E coube justamente ao primeiro deles executar o golpe fatal em Cristiano Ronaldo – o CR7, o Dom Sebastião moderno português –, que recebe um golpe no joelho esquerdo aos oito minutos de batalha e morre para o combate logo em seguida.

O misticismo lusitano – e brasileiro –, que procura transferir tantas responsabilidades para o outro, eximindo-nos a nós mesmos de assumir nossas culpas e desculpas, pareceu sucumbir ao destino mais uma vez. Ronaldo deixa o campo de batalha, e mais não se sabe a seu respeito. Desapareceu, assim como Dom Sebastião. Estaria sendo atendido no estádio ou teria sido levado a um hospital? Teria acabado em prantos em algum canto dos vestiários? O que faria ele enquanto a partida se desenrolava incerta por mais de uma hora após o abandono do craque? Onde teria ele aportado, ele que não mais voltou?

Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

(Trecho do poema “A última nau”, do livro Mensagem de Fernando Pessoa)

Não faltou alma, pois a alma atlântica portuguesa entrou em ação – e uma legião de mestiços, negros e ciganos – africanos e brasileiros – fez frente ao exército franco-muçulmano: foi a vez de Nani, Renato Sanches, João Mário, Willian Carvalho, Eliseu, Danilo, Bruno Alves, Quaresma e Pepe cumprirem sua parte ao lado dos descendentes diretos de Dom Sebastião. Fim de jogo e, antes do início da prorrogação, o vulto baço do encoberto retorna entre a cerração, regressando numa noite de (quase) nevoeiro. É fantástica a reaparição de Cristiano Ronaldo a sair do túnel que dá acesso ao gramado enquanto os soldados lusos recuperam-se para mais 30 minutos de luta. E nosso Dom Sebastião moderno, por vezes irresponsável e megalômano como o original, vai ao encontro de cada um dos seus guerreiros, proferindo algumas palavras de confiança e incentivo.

Algumas dessas palavras foram endereçadas a Ederzito, o Éder, ainda não citado na lista acima. Nascido na Guiné-Bissau, este “herói improvável” acabou por cumprir o fado atlântico e lusitano. O resto, o leitor já há de saber: o negro guineense anota o gol da vitória portuguesa, o gol redentor que promove a volta à ribalta do Dom Sebastião moderno. Cristiano Ronaldo, ferido, orienta os soldados à beira do campo ao lado do verdadeiro comandante, o técnico Fernando Santos. Chora, grita, torce e contorce-se, limitado pela perna coxa. Depois, sobe às tribunas do Stade de France para receber o troféu da vitória. Foi preciso esperar 438 anos para apagar-se a má–sorte do “Rei Encoberto”.

Em que pese a licença poética para aproximar o mito do sebastianismo à conquista inédita dos “Tugas”, é preciso reconhecer que Portugal já merecia uma honraria deste porte por tudo o que ofereceu ao mundo do futebol, seja por meio de seus jogadores, de suas equipes ou de seus treinadores. Desde a década de 1960 – e com certa constância nas últimas duas décadas – que o futebol português alcançou uma vitrine importante no mundo da bola. Injusto é traçar como injusta essa conquista, como iniciou o site francês 20 Minutes, chamando a seleção lusa de “dégueulasse” após vitória sobre a Croácia nas quartas-de-final: “Ce Portugal est dégueulasse mais il est en quarts” (“Este Portugal provoca nojo/é nojento mas está nas quartas-de-final”).

Ao exagero do jornalista seguiu-se o exagero de alguns dos integrantes da enorme comunidade portuguesa que vive na França, os quais chegaram a ameaçar de morte o autor de tal artigo. O próprio site achou por bem evitar maiores conflitos diplomáticos e retificou o título para “Cette équipe portugaise n'est pas belle mais elle est en quarts” (“Esta equipe portuguesa não é bela mas está nas quartas-de-final” – http://www.20minutes.fr/sport/football/1873215-20160626-euro-2016-equipe-portugaise-belle-quarts).

Na fase de grupos, em que pese Portugal ter feito três jogos e somado três empates, cabe referir que foi a Seleção com o maior número de ataques e arremates ao gol – o que mostra que nunca deixou de buscar a vitória. Após a fase de grupos, foram quatro partidas e três prorrogações (se somarmos o tempo de jogo, temos 450 minutos, ou cinco partidas de 90 minutos). Ao longo de todo esse período, os Tugas levaram apenas um gol (anotado pela Polônia), o que mostra que tiveram a precaução que faltou aos exércitos liderados por Dom Sebastião e Mulay Mohammed no final do Século XVI.

Estigmatizados na França pela sua condição de imigrante e de trabalhador braçal na sua grande maioria, os “petit portugais” ou portuguesinhos não escondiam o orgulho por terem vencido a soberba gaulesa e o descrédito de parte da imprensa europeia. A mão do vento pôde erguer a chama que a vida criou em nós. A mão do vento foi também o pé direito de Éder, que os fez conquistar a todos uma nova distância.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

(Trecho do Poema “Prece”, do livro Mensagem de Fernando Pessoa)

Como o próprio Pessoa também escreveu no poema “O Infante” de sua Mensagem, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. O técnico Fernando Santos, desde o início da Eurocopa, dizia para a imprensa portuguesa incrédula que ele só voltaria a Portugal no dia 11 de julho de 2016, após a final do torneio. Sonhou alto e fez a obra nascer. O que virá daqui para a frente? Não se sabe. Talvez o vaticínio que trazem os dois versos finais deste mesmo poema pessoano: “Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

 

 

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