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LUDENS

Os Uniformes Chineses - 03/08/2016

 Joo Malaia Pontos de vista

Após uma breve viagem à França para dar uma palestra em um evento de esportes universitários, estava eu à espera de meu voo para São Paulo no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Muitos brasileiros voltando para casa após as férias e, de repente, vários atletas da delegação chinesa aparecem para embarcar no voo rumo ao Brasil.

Atletas de várias modalidades da delegação chinesa (remo, natação, esgrima, tênis de mesa, badminton, vôlei, boxe, tae-kwon-do, natação, pentatlo moderno, polo aquático, nado sincronizado, levantamento de peso, futebol, ginástica artística e luta olímpica) escolheram São Paulo para realizar parte de seus treinos de adaptação no Brasil.

O que me chamou mais atenção foram os uniformes da delegação chinesa. Lindos casacos e calças vermelhos e amarelos uniformizavam os membros da delegação. Eram cerca de 60 atletas, todos vestidos de maneira igual, caminhando juntos e entrando juntos no avião. Percebi que havia homens, mulheres, altos, baixos, fortes, magros, diferentes caraterísticas físicas, mas todos atletas olímpicos. Todos devidamente uniformizados entrando no avião.

Como sou sempre dos últimos a entrar no avião, fiquei ali a observar. E com quase todo mundo embarcado, entrei no avião. Passei por aquela classe executiva: poltronas largas, telas grandes para ver filmes, espaço para deitar, um luxo. Como sou mortal, fui para meu devido lugar na rabeira do avião. Mas notei que a tal classe executiva, ou business, estava praticamente tomada pelos atletas chineses. Apenas alguns lugares não estavam ocupados pela delegação.

No entanto, ao caminhar para meu lugar, percebi que alguns lugares da chamada “classe turística” também estavam ocupados por alguns uniformizados atletas chineses. Um deles com mais de 1,90m sentou-se à minha frente, lá no fundo do avião. Lembrei de ver um atleta bem menor, bem confortável em uma grande cadeira da “classe executiva”.

Cenas como esta mostram que todo aquele imaginário de igualdade que o esporte insiste em apregoar, o valor do respeito que é um dos pilares do olimpismo, cai por terra na distribuição das cadeiras de um avião. A uniformidade dos lindos casacos e calças não existe neste momento. A escolha de quem vai se sentar em qual lugar, provavelmente deve ter a ver com algum critério, também esportivo, de conquista no passado e/ou possibilidade de conquista no presente. É a discriminação esportiva. Ou a esportividade da discriminação.

Ao chegar a São Paulo, todos foram para a mesma fila da imigração. Todos foram juntos recolher suas bagagens na esteira. Todos saíram para pegar o ônibus que os esperava à saída do aeroporto. Todos uniformizados. A partir daí, não os vi mais. Mas fica gravada em minha memória a cena dos uniformes. Para sempre me lembrar deste espírito esportivo.

 

 

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