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“Morre, Preto!” - 16/06/2016

“MORRE, PRETO!”: ALGUMAS NOTAS AUTOETNOGRÁFICAS SOBRE O FUTEBOL PORTUGUÊS E AS HOMENAGENS A EUSÉBIO NO BENFICA 2 X 0 PORTO DE JANEIRO DE 2014

zeca marques

Dando continuidade às notas autoetnográficas sobre o futebol português que inaugurei neste espaço no ano passado1, comento agora a experiência de ter assistido ao clássico Benfica x Porto no Estádio da Luz em 12 de janeiro de 2014 – partida carregada de simbolismos e homenagens: tratava-se do primeiro jogo do Benfica após a morte de Eusébio, maior craque da história do clube e o maior futebolista português até a consagração recente de Cristiano Ronaldo.

Eusébio da Silva Ferreira nascera em Moçambique, então colônia de Portugal, em 25 de janeiro de 1942. Poucos dias antes de completar 72 anos, foi vítima de uma insuficiência cardíaca e veio a falecer na madrugada de 5 de janeiro de 2014, em Lisboa. Defendeu o Benfica de 1960 a 1975, período durante o qual conquistou 11 títulos nacionais, cinco Taças de Portugal e uma Liga dos Campeões. Pela Seleção de Portugal, foi o destaque da campanha do terceiro lugar no Mundial de 1966, na Inglaterra, quando também foi o artilheiro da Copa com nove gols.

Apesar de muito ligado ao clube da Luz (de quem era fervoroso adepto), Eusébio transcendeu as rivalidades clubísticas e transformou-se com o tempo no maior embaixador do futebol português. Não à toa, era presença garantida nas delegações oficiais da Seleção dos Tugas, especialmente nas Copas do Mundo e nas Eurocopas disputadas na década passada. Durante a permanência de Luiz Felipe Scolari como técnico de Portugal (de 2003 a 2008), por exemplo, o jogador fazia parte do próprio staff da equipe, com direito a permanecer no banco de reservas durante os jogos.

Com a Liga Portuguesa interrompida por força dos festejos de fim de ano em dezembro de 2013, uma feliz coincidência faria com que a retomada do campeonato, em sua 15ª rodada, tivesse agendado um Benfica x Porto para o dia 12 de janeiro – uma semana após o falecimento do jogador. Obviamente, tanto o Benfica como a Federação Portuguesa de Futebol começaram a programar uma série de homenagens para celebrar a carreira do “Pantera Negra”. E, depois de o corpo do atleta ter sido velado no próprio Estádio da Luz, a casa benfiquista seria palco da derradeira homenagem ao King, como Eusébio também ficou conhecido em Portugal. Para tanto, a família do jogador havia solicitado que, durante o minuto de silêncio que antecederia o início do clássico, o público permanecesse de fato em silêncio, sem sequer manifestar-se com palmas, como é comum em alguns países europeus em ocasiões desse tipo. Sobre a estátua do jogador colocada em frente ao estádio, centenas de cachecóis, bandeiras e lembranças já haviam sido deixadas à época pelos simpatizantes do craque (Ver Imagem 1).

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Imagem 1: Estátua de Eusébio em frente ao Estádio da Luz com as homenagens dos fãs.
(Foto: José Carlos Marques)

Minha ida ao jogo repetiria experiência proporcionada anteriormente pela Profa. Salomé Marivoet, responsável por me receber em Lisboa para o estágio de pós-doutoramento: ela também orientava a dissertação de mestrado do Sr. Rui Pereira, chefe de segurança do Estádio da Luz. Por meio dele, voltamos a obter duas credenciais de livre acesso a todos os setores destinados ao público. Assim, à semelhança do que já havíamos feito no Benfica x Sporting em novembro de 2013, experimentaríamos uma nova vivência etnográfica, assistindo ao primeiro tempo do novo jogo em meio às “claques” do FC Porto (ou seja, misturados às “torcidas organizadas” dos Super Dragões e do Colectivo Ultras 95) e ao segundo tempo em meio à claque dos No Name Boys, do Benfica.

Naquele domingo de chuva fina em Lisboa, 62.508 pessoas animaram-se a praticamente lotar a Catedral da Luz, muitos motivados pelas homenagens a Eusébio, muitos também interessados na busca da liderança do campeonato, em disputa pelos dois rivais. Como de praxe na Liga Portuguesa, 5% da capacidade de ingressos do estádio fora destinada ao clube visitante. Os pouco mais de três mil bilhetes estavam nas mãos (como costuma acontecer no Brasil) das claques portistas, cujos integrantes se haviam deslocado após a chegada a Lisboa por meio da escolta das forças de segurança. Ao chegarem ao estádio, os visitantes (e isso pude perceber em diversos outros jogos com o mando do Benfica) permaneciam enfileirados por entre grades de ferro, que formavam um circuito quase labiríntico de circulação (não posso deixar de comparar tal estrutura ao mesmo que se vê em abatedouros de carne animal, como se de gado se tratasse).

O policiamento permitia aos poucos o avanço dos torcedores portistas: a cada cinco minutos, cerca de três centenas de adeptos avançavam por entre o circuito de grades, até posicionar-se ante uma escada que daria acesso a um largo calçamento que circundava o estádio. Neste momento, presenciei um expediente impensável nos recintos brasileiros: os torcedores adversários precisariam atravessar esse largo calçamento (por onde circulavam centenas de torcedores do Benfica) para chegar à escadaria que daria acesso ao setor dos visitantes. Para realizar essa travessia, o policiamento interrompia o fluxo das pessoas, como se estivéssemos diante de um cruzamento de nível de uma linha férrea.

Com o tráfego paralisado, cada grupo de 300 torcedores atravessava a via correndo, xingando e sendo xingados pelos benfiquistas que por ali se encontravam. A troca de ofensas verbais e de gestos era constante: o coro preferido dos torcedores locais era o “Filhos da Puta! Filhos da Puta! Aconteça o que acontecer, o Porto é merda até morrer” (o cântico é de livre uso em Portugal, e serve para qualquer claque atacar a torcida visitante; cheguei até a ouvi-lo no jogo Belenenses x Braga, no Estádio do Restelo, em Lisboa); já os portistas provocavam os encarnados gritando o nome de Kelvin (que passou pelo Palmeiras e hoje atua no São Paulo), autor de uma virada histórica aos 47 minutos do segundo tempo no Porto 2 x 1 Benfica, em maio de 2013, resultado que sacramentou o título portista naquela temporada (Ver Imagem 2 e 3).

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Imagem 2: Entrada das claques do FC Porto no Estádio da Luz e o cerco das forças de segurança. (Foto: José Carlos Marques)

 

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Imagem 3: Adeptos do Benfica, separados por meia dúzia de policiais, observam a entrada das claques do FC Porto no Estádio da Luz. (Foto: José Carlos Marques)

Fico a imaginar o que poderia ocorrer se um grupo maior de benfiquistas se organizasse para enfrentar fisicamente os rivais; temo que as forças de segurança que organizavam aquela travessia de comboios teriam inúmeras dificuldades para conter a turba. Mas nada de mais grave se notou. Depois que toda a claque portista já havia atravessado o calçamento, tivemos que “escalar” as várias dezenas de degraus (tal qual eu já relatara na coluna anterior, por ocasião do Portugal x Suécia) para chegar ao setor destinado à torcida visitante, a chamada “caixa de segurança”: uma área no último anel do estádio, isolada por grades e por redes de proteção de cima a baixo, como se estivéssemos dentro de uma gaiola.

Perto do início do jogo, a organização local colocou em prática um mosaico gigantesco, feito por cartolinas coloridas colocadas em cada um dos lugares e empunhadas pelos torcedores – à exceção dos que estavam na “caixa de segurança”, onde ficam os visitantes. Os desenhos alternavam-se entre o vermelho e o branco, até que no centro da arquibancada, de frente para as tribunas de imprensa e para o camarote presidencial, surgiu a imagem do jogador e a frase “Eusébio sempre”. Assim que as equipes pisaram no gramado e o árbitro deu sequência ao protocolo do jogo, a dúvida que se instalou era a seguinte: os torcedores do Porto iriam respeitar o pedido de silêncio feito pela família do jogador? A rivalidade clubística falaria mais alto que o respeito por um jogador que, a despeito da relação com o Benfica, era tido também como um símbolo do futebol português?

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Imagem 4: Mosaico feito pelos adeptos do Benfica no Estádio da Luz e faixas em homenagem à memória do jogador Eusébio. (Foto: José Carlos Marques)

Poucos segundos foram precisos para que as dúvidas se dissipassem. Os líderes das claques do Porto fizeram um trabalho meticuloso no sentido de conscientizar seus comandados, a fim de que todos respeitassem o minuto de silêncio. Na medida do possível, os adeptos portistas, em sua ampla maioria, ficaram quietos. Aqui e lá, entretanto, puderam-se ouvir alguns impropérios inadequados, como “Morre, preto!” e “O cagalhão no Panteão” – aqui, a ironia dizia respeito à proposta embrionária de se levar os restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional, monumento reservado ao sepultamento de pessoas ilustres (como o da cantora Amália Rodrigues) ou aos cenotáfios de heróis da Pátria, como o Infante Dom Henrique, o navegador Pedro Álvares Cabral e o poeta Luís de Camões.

O “Morre, preto”, saído da boca de algum infeliz recalcado, foi logo censurado por alguns adeptos mais sensatos. Súbito, houve uma rápida troca de insultos entre os próprios torcedores portistas: “- Quem tu és para me fazeres calar?”, disparou um. “Olha, por acaso és mais portista do que eu? Sou tão portista quanto tu”, respondeu o segundo. Antes que o diálogo ficasse mais aceso, o árbitro do jogo decretou o fim do minuto de silêncio, ao que se seguiram aplausos e gritos da torcida benfiquista. Era hora de esquecer as homenagens e prestar atenção à luta pela liderança.
Mais concentrado na partida, o Benfica abriu o placar logo aos 13 minutos, numa bela jogada de ataque finalizada pelo atacante Rodrigo (atualmente no Valencia, da Espanha). Mais uma vez, do mesmo modo como eu já havia sofrido no Benfica x Sporting, fui obrigado a assistir a um gol dos encarnados e a ficar imóvel em meio à torcida adversária. O Porto atuava mal, pouco perigo levava à meta do time da casa, e o jogo arrastou-se para o intervalo com a equipe benfiquista tranquila e segura. No intervalo, esperamos os bares do setor dos visitantes ficarem um pouco mais desocupados e, perto do reinício da partida, fizemos um lanche rápido. Era o momento, agora, de irmos para o lado da claque benfiquista – para o meu deleite e minha tranquilidade. No entanto, quando estávamos deixando o saguão interno do estádio, uma nova ovação coletiva dava conta da ocorrência de mais um gol: o zagueiro Garay (atualmente no Zenit, da Rússia) ampliava o placar para o Benfica – e, mais uma vez, não pude sequer vibrar com um novo tento dos encarnados.

Esse segundo gol, marcado logo aos 53 minutos (8 do segundo tempo), pareceu ter anestesiado as duas equipes. Não havia clima para mais emoções: Eusébio tivera sua memória homenageada à altura, com uma vitória inconteste do Benfica, que assumia assim a ponta da tabela na última rodada do primeiro turno, dando sequência então a uma fuga que culminaria com a conquista do título pouco mais de três meses depois. Eu acabava de ter o privilégio de assistir a uma bela homenagem feita a um dos maiores craques da história e ídolo de criança. E só lamentava, mais uma vez, não poder ter gritado gol do Benfica com o peito inflado. Melhor assim... Desta vez, não tive que participar dos festejos de nenhum gol feito pelos adversários. Além do mais, mesmo que visando à escrita posterior de um relato pessoal e autoetnográfico como este, era preciso manter certo decoro acadêmico à frente de minha tutora.

[1] O primeiro artigo desta série, “Algumas notas autoetnográficas sobre o futebol português – Capítulo 1: o Benfica 4 x 3 Sporting de 2013 – 31/08/2015”, pode ser acessado aqui. O segundo artigo, “O ‘taxista sueco’: algumas notas autoetnográficas sobre o futebol português no Portugal 1 x 0 Suécia de 2013” está disponível aqui.

 

 

 

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