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O taxista “sueco” - 15/02/2016

O TAXISTA “SUECO”: ALGUMAS NOTAS AUTOETNOGRÁFICAS SOBRE O FUTEBOL PORTUGUÊS NO PORTUGAL 1 X 0 SUÉCIA DE 2013 - 15/02/2016

 

 zeca marques

 

Como já referido em minha coluna anterior, “Algumas notas autoetnográficas sobre o futebol português – Capítulo 1: o Benfica 4 x 3 Sporting de 2013 – 31/08/2015” (o texto pode ser acessado aqui), permaneci em Lisboa (Portugal) de novembro de 2013 a abril de 2014 a realizar um estágio de pós-doutoramento. O texto inaugural desta série narrava as peripécias do Benfica 4 x 3 Sporting, pela Taça de Portugal (jogo realizado em 09/11/2013). Dando continuidade assim ao conhecimento da “sociabilidade torcedora” [1] dos adeptos portugueses, passo agora ao relato autoetnográfico do Portugal 1 x 0 Suécia, partida válida pela repescagem europeia das eliminatórias da Copa do Mundo de 2014.

O confronto em questão teria o jogo de ida realizado no dia 15 de novembro de 2015, uma sexta-feira à noite, no Estádio da Luz, em Lisboa. O jogo de volta aconteceria quatro dias depois, em Estocolmo, na Suécia. Oito seleções europeias, distribuídas por sorteio, disputavam as quatro vagas restantes do continente. Além do Portugal x Suécia, tínhamos também o Ucrânia x França, o Romênia x Grécia e o Islândia x Croácia. Muitos aficionados queixavam-se de que o sorteio que ditara estes embates havia sido muito ingrato, pois ou Suécia ou Portugal ficariam de fora da Copa (o juízo comum era o de que o Mundial não deveria privar-se da presença do sueco Zlatan Ibrahimovic ou do português Cristiano Ronaldo).

Portugal, na verdade, não ficara tão descontente pelo fato de lhe ter calhado a Suécia na “dança das bolinhas”. Além da equipe escandinava, as outras seleções que poderiam ser definidas pelo sorteio eram a Romênia, a Islândia e a França. E, obviamente, os franceses eram o adversário a se evitar a todo custo, tanto pelo fato de Portugal ter um retrospecto absolutamente desfavorável perante os gauleses (22 derrotas lusas, 1 empate e apenas 5 vitórias, a última em 1975) como pelo fato de ser notória a força de bastidores da seleção francesa devido à presença de Michel Platini na presidência da UEFA à época (todos hão de se lembrar da “Mão de Henry” na repescagem da Copa de 2010, quando a França sacramentou a classificação sobre a Irlanda com um gol polêmico, originado de uma ilegalidade cometida pelo jogador Henry).

Logo que ficou definido que Portugal jogaria a 15 de novembro em Lisboa, procurei adquirir prontamente os ingressos para o jogo. Minha intenção era levar comigo meus pais, Maria Eugénia e João Marques, que nunca haviam assistido a uma partida dos Tugas no estádio.

A responsabilidade pela comercialização dos bilhetes era da Federação Portugue-sa de Futebol (FPF), que demorou a iniciar a venda dos assentos. Causou-me estranheza, por exemplo, que por meio do próprio site da FPF eu tivesse a possibilidade de comprar os ingressos para o Suécia x Portugal em Estocolmo antes mesmo de poder comprar os ingressos para o jogo no Estádio da Luz, que aconteceria quatro dias antes. Outra estranheza: assim que abriram a venda dos bilhetes pelo site da FPF, podia-se apenas selecionar o piso, mas não o setor e o assento exato – ao contrário do que ocorre quando o próprio Benfica, proprietário do estádio, comercializa os jogos em seu estádio.

Devido aos valores, selecionei três assentos no último piso do Estádio da Luz (os mais baratos) – opção que, uma semana depois, mostrar-se-ia bastante inadequada, conforme veremos mais à frente. Retirei os bilhetes dias antes no próprio estádio. Chegando à Catedral da Luz, uma certeza já se impunha: diferentemente do que acontece nos jogos dos grandes portugueses, quando há uma considerável presença de membros das claques (= torcidas organizadas) e de fanáticos dos mais variados tipos nas arquibancadas, os jogos da seleção nacional atraem um público muito distinto, formado por uma presença maciça de crianças e idosos.

Ainda que no Brasil os jogos da seleção canarinho mostrem um perfil semelhante nos últimos anos, sem a presença das chamadas organizadas, a participação de pessoas mais velhas nos estádios ainda é consideravelmente menor do que ocorre em Portugal. Esse fluxo tão grande de crianças e idosos provocava uma dificuldade inesperada: para ter acesso ao último anel do estádio, não havia elevadores disponíveis para o público. Elevadores havia – vários, aliás –, mas nenhum poderia ser utilizado pelos adeptos, conforme resposta que recebi dos agentes da segurança local.

Argumentei que meu pai, então com 81 anos, teria dificuldades para subir mais de uma centena de degraus. Permaneceram inflexíveis. Assim, a lentos passos e com certa dificuldade, tivemos que vencer o obstáculo que nos ofereceram – e a outros milhares de pessoas – para chegarmos ao topo do Estádio da Luz.
O contratempo inicial foi rapidamente superado pela atmosfera do ambiente. A FPF havia organizado um mosaico gigante a ser formado pelo público, o qual, empunhando cartolinas vermelhas, verdes e amarelas, acabaria por formar o desenho da bandeira portuguesa durante a execução do hino nacional. Assim como experimentado no Brasil especialmente durante a Copa das Confederações, em 2013, a audição do hino no estádio havia se transformado numa experiência ímpar para o público. E entoar “A Portuguesa” ao lado de mais de 61 mil vozes era o prêmio maior que minha mãe recebia naquela noite – ela que tanto se emociona ao cantar o hino quando vê os jogos da sele-ção pela TV.

Inicia-se o jogo, e as duas equipes mostram uma cautela excessiva. Ninguém que-ria arriscar-se muito, e o nervosismo estava estampado nos dois lados. Duas falhas de-fensivas portuguesas quase originaram um gol dos suecos no começo da partida. Mas aos poucos a equipe comandada por Cristiano Ronaldo tomou o controle do encontro e pas-sou a dominar as ações. Vem o segundo tempo, e Portugal continua procurando alguma forma de superar a alta defesa escandinava, e os suecos sem conseguirem encontrar-se em campo. A certa altura duvidei que a Suécia merecesse estar disputando uma repesca-gem para a Copa do Mundo, tal era a apatia do time na segunda metade do jogo.

Conforme já comentado também em meu texto anterior, minha “sociabilidade torcedora” em Lisboa procurou reproduzir as práticas correntes que sempre vivenciei no futebol brasileiro. Neste Portugal x Suécia, entretanto, percebi o quanto uma partida de futebol da Seleção Portuguesa exigia comportamentos muito distintos daqueles a que estamos acostumados. Durante mais de uma hora não poupei o Ibrahimovic e seus colegas escandinavos dos mais impolutos xingamentos que são corriqueiros nos recintos tupiniquins. Outro que não foi poupado de meus “elogios” foi o árbitro italiano Nicola Rizzoli e seus assistentes, e toda a UEFA e a FIFA juntas.

Demorei a perceber que, em minha volta, eram inúmeros os olhares e expressões de reprovação que eu via nos rostos daquelas pessoas sempre que eu soltava minhas frases de “baixo calão” – algo mais do que comum nos estádios brasileiros, mesmo em jogos da Seleção Brasileira. Até que, a certa altura, identifiquei que, na verdade, meus vizinhos de assento (muitos idosos e crianças) não acreditavam que alguém pudesse pronunciar tantos palavrões por minuto como eu.

Sorte minha que esta percepção de desconforto (desconforto meu e daqueles que me ouviam, obviamente) foi superada mais tarde pelo gol de Cristiano Ronaldo, aos 37 minutos do segundo tempo. As mais de 61 mil pessoas ali presentes – eu incluído – pudemos então respirar mais aliviado. Três minutos depois, Portugal quase marca o segundo, novamente por Cristiano Ronaldo, mas a bola vai ao travessão. É quando então nos levantamos e nos dirigimos para a saída. De forma prudente, imaginei que seria mais fácil descer aquelas dezenas de lances de escada com meus pais antes que a multidão deixasse o estádio.
Comprovei ali o dito popular segundo o qual “para baixo todo santo ajuda”. O desafio, depois de descer, era providenciar um táxi para voltarmos a casa. Já do lado de fora, na rua em volta, avistei um táxi vazio, parado em frente a um semáforo vermelho. Corri até ele e pedi que aguardasse alguns segundos, até a chegada dos meus pais. O motorista não demonstrou nenhum tipo de concordância ou discordância – apenas ficou imóvel, calado. Meus pais logo entram, e em seguida digo o destino. É então que um silêncio incômodo instala-se no carro.

Passam-se alguns quilômetros, e o motorista permanece mudo. Não fosse a tez morena e o tipo mediterrânico, eu julgaria que se tratava de um sueco infiltrado em Lisboa, à espera de topar com alguns adeptos lusos logo depois daquele jogo. Afinal de contas, que raios ele foi fazer ali, àquela hora, à frente do Estádio da Luz? Era um fã do Ibra? Trabalhava para a polícia secreta escandinava?

Portugal disputava a terceira repescagem consecutiva (havia passado por iguais apuros nas eliminatórias para a Copa de 2010 e para a Eurocopa de 2012). Poder participar de um Mundial no Brasil, dadas as relações históricas dos dois países, era um motivo a mais para que todos ficassem entusiasmados com o placar daquele dia. Mas nosso motorista de táxi parecia contrariado não sei com o quê.

Não se falava tanto em Ubers no final de 2013, mas é provável que, ao sair do Estádio da Luz, eu quisesse um tratamento diferente, com direito a ver o gol do CR7 numa tela plana dentro do carro. Mas nada disso me é oferecido, e sim a indiferença de nosso motorista “sueco”. Já em frente de casa, ao sair do táxi, pensei em repetir as coisas que, pouco antes, eu havia vociferado nas arquibancadas, mas logo desisti. Julguei que eu já havia esgotado minha cota de insultos para as próximas semanas. Além do mais, havia o jogo de volta, em Estocolmo...

P.S.: Quatro dias depois, esgotei a cota de impropérios para todo o semestre, ao xingar novamente o Ibra, o árbitro, o taxista, a defesa lusa e o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, que meses antes havia ironizado a figura de CR7. Mas o gajo, num show particular, fez mais três gols em Estocolmo, e Portugal venceu a Suécia por 3 x 2.

 

[1] Mais uma vez, tomo emprestada a expressão utilizada por Flavio de Campos e Luiz Henrique de Toledo em artigo sobre o projeto “Brasil na Arquibancada”, publicado na Revista USP nº 99, Dossiê Futebol (set-out-nov-2013).

 

 

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