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Apenas Sugestões - 08/12/2015

Apenas Sugestões - Por Gustavo Longhi de Carvalho - 08/12/2015

 

Este texto contém pequenas sugestões referentes à formação dos jogadores brasileiros de futebol profissional, e se trata de uma atualização de um texto que publiquei em julho de 2014 (CARVALHO, 2014), com modificações que considerei pertinentes.

Seu tema, por uma feliz coincidência, tem ligação com o texto da Professora Fátima Antunes (“Reflexões de Torcedor”), publicado nesta mesma seção “Ponto de Vista”, do Ludens, no dia 26 de outubro de 2015 (ANTUNES, 2015), e também certamente teria ligação com o texto que o Professor Denaldo Alchorne de Souza publicaria, nesta mesma seção, quatro semanas depois, em 23 de novembro. Isto porque o Prof. Denaldo menciona, no texto que publicou nesta data (SOUZA, 2015), que iria abordar “o estilo de jogo desenvolvido nas divisões de base dos clubes” (tema pelo qual procurarei passar, mesmo como uma reflexão inicial), quando ocorreram os atentados terroristas na França no dia 13 de novembro de 2015 e ele modificou seu tema. Em suma, neste momento de uma indiscutível crise técnica do futebol brasileiro, a formação de bons jogadores torna-se um assunto candente.

No momento atual, considero que o Brasil está perdendo a chance de aprender com seus erros e maus resultados, pelo menos no que diz respeito a futebol. Afinal, os grandes, seja no contexto esportivo ou geral, aprendem com as derrotas. Já dizia José Raul Capablanca (1888 – 1942), um dos maiores jogadores da história do xadrez, que pode-se aprender mais com uma partida perdida do que com cem partidas ganhas. As derrotas do Brasil nos últimos anos, sobretudo a que ocorreu contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014, indicam que algo precisa ser modificado. Elas pelo menos deveriam servir para isto. Como, desde este fato, nada de muito concreto foi realizado no sentido de uma mudança real do futebol brasileiro, tomo a liberdade de seguir com este assunto.

Por outra coincidência, há poucos dias, em novembro de 2015, foi divulgado na internet um estudo comparativo entre o futebol alemão e o futebol brasileiro realizado pelo consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi (SOMOGGI, 2015). Neste estudo, entre outros aspectos, descrevem-se ações tomadas pela Federação Alemã a partir de 2000, quando o país vivia uma crise técnica e teve maus resultados na Eurocopa daquele ano. As ações tomadas começaram a surtir um claro efeito a partir, sobretudo, de 2008 – desde então, a Alemanha vem colhendo resultados consistentes nas principais competições que disputa, o que culminou com o título mundial de 2014. Mesmo conquistando o vice-campeonato na Copa do Mundo de 2002, os alemães perceberam que aquela seleção, com todo o respeito e algumas honrosas exceções, não era tão boa assim, e que o país, para conquistar resultados com consistência, precisaria formar um número maior de jogadores de grande qualidade em relação ao que estava formando.

Quanto ao futebol brasileiro, o que poderia ser feito neste momento? Penso que as principais razões para a disparidade entre as seleções brasileira e alemã naquela fatídica partida de 2014 foram duas: a diferença de força e armação do meio-campo e, principalmente, a qualidade técnica dos jogadores, em geral. Diante disto, tomo a liberdade de fazer as seguintes sugestões, que são apenas as mais imediatas:

- Focar a formação de jogadores criativos e técnicos, de meio-campo. Jogadores que pensem o jogo, não tenham medo de errar e arriscar um passe e sejam armadores e organizadores das equipes. Já faz muito tempo que o Brasil não tem, ou tem pouquíssimos jogadores com esta função. Estes jogadores podem ser modernos e participativos e não fazem apenas parte do “futebol do passado”, como alguns talvez possam pensar. Sem dúvida, os volantes e marcadores são importantes, mas não se deve apenas formar volantes. É fundamental que também se formem meias, jogadores que têm a preocupação e a capacidade de dar um passe que coloque seu companheiro em condição de finalizar ao gol. Penso que esta é a maior deficiência do futebol brasileiro no momento, pois o Brasil tem formado bons zagueiros e alguns bons atacantes.

- Não se deve, jamais, mascarar a falta de qualidade técnica e criatividade com vontade. Os maiores jogadores do mundo, brasileiros e estrangeiros, sempre jogaram com muita vontade. Pelé, Garrincha e Zico não jogavam com vontade? Maradona não jogava com vontade? Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar não jogam com vontade? Vontade e raça são requisitos básicos de um bom jogador de futebol. O diferencial é a qualidade técnica e a criatividade. Todos os grandes títulos conquistados pela Seleção Brasileira foram baseados em jogadores de grande qualidade técnica e talento – basta verificar, para se concluir que isto é verdade. Os jogadores voluntariosos, ou “carregadores de piano”, são importantes, mas um time não ganha somente com “carregadores de piano”. O “grupo” de jogadores deve fazer a diferença, mas um bom “grupo” precisa contar com bons trabalhos individuais e com indivíduos que sejam capazes de fazer também a diferença.

- Não se deve, também, misturar qualidade técnica e criatividade com habilidade. O Brasil, desde muito antes da Copa de 2014, tem formado alguns jogadores muito habilidosos, que “pedalam” sobre a bola em qualquer momento, até antes do meio-campo, mas que acabam não se revelando efetivos para suas equipes. Craque não é o jogador necessariamente mais habilidoso. É o jogador que é criativo e tem a jogada certa na hora certa – em muitas vezes é um passe em profundidade, em algumas outras poderá também ser uma “pedalada” ou um drible, mas sempre com objetividade. A Alemanha não deu praticamente nenhum drible na goleada sobre o Brasil na Copa. Mas mostrou muita qualidade técnica, objetividade e criatividade.

- A formação de jogadores no Brasil sempre ocorreu de forma natural, com os garotos aprendendo a jogar bola na rua, nos campinhos ou nas quadras. Apenas a título de exemplo, como diria o grande Tostão (li isto em um texto dele alguns anos atrás), o ex-atacante Romário aprendeu a jogar futebol brincando, e não numa escolinha ou equipe de base. Por várias razões, porém, há cada vez menos campinhos e está cada vez mais difícil de se formar jogadores desta forma. O futebol brasileiro está sentindo isto. Estão se formando cada vez mais jogadores “voluntariosos, disciplinados taticamente”, e cada vez menos jogadores geniais, imprevisíveis, criativos. Reforço que não tenho nada contra as escolinhas, que, muito nobremente, procuram formar, antes de bons jogadores, bons cidadãos - isto é fantástico. Apenas digo que as escolinhas e as categorias de base não deveriam ser as únicas ou preponderantes fontes de formação de jogadores do Brasil.

- Outra sugestão: que as categorias de base, dos clubes e da Seleção Brasileira, parem de se preocupar tanto com os resultados e se preocupem mais com a formação de jogadores técnicos e criativos. Os resultados importantes são os das equipes adultas. Não adianta nada, com todo o respeito, ser campeão de todas as categorias de base e tomar de 7 a 1 da Alemanha na Copa. É muito importante que se formem equipes que troquem passes com qualidade e objetividade. As categorias de base deveriam ser comandadas apenas por quem enxergasse o talento nos jogadores e desse liberdade para que eles criassem e, por que não, também errassem, para que chegassem à categoria profissional mais maduros, preparados e confiantes.

- Reforço que o grande diferencial do futebol vitorioso deve ser a qualidade técnica e o passe, não o drible. O drible deve ser um recurso que surpreende o adversário, por ocorrer esporadicamente, de forma imprevisível. O drible não deve ser a regra, pois os marcadores passam a esperá-lo e fica muito mais difícil de ele ocorrer desta forma. A regra deve ser o passe, e o drible a exceção. Abordando, de maneira apenas inicial, o conceito de “Futebol Arte” ou de “Futebol Bonito”, que durante muito tempo teve a Seleção Brasileira como um dos seus maiores expoentes, as três seleções nacionais que, talvez, mais sejam ligadas a esta expressão, foram as que jogaram as Copas do Mundo de 1958, 1970 e 1982. As duas primeiras venceram, de forma brilhante, o Mundial, enquanto a última, mesmo sem vencer, tornou-se instantaneamente vinculada a um futebol jogado de forma bonita e com muita categoria. Nenhuma destas três seleções tinha como principal recurso o drible. O que fazia a diferença nestes times era a qualidade e a criatividade dos seus jogadores, e a excepcional combinação entre eles, geralmente através de belos passes.

O Brasil sempre teve talentos para o futebol, e certamente continua tendo. Mas estes talentos não devem ser “engessados” na base, em prol de “resultados”. A Seleção Brasileira voltará a jogar como o Brasil que todos esperam quando formar um meio-campo que, além de marcar, seja técnico e criativo. Quando eu era criança, ouvia muito a expressão de que “quem ganha o meio-campo ganha o jogo”. Ganhar o meio-campo, que fique claro, não é só marcar bem, mas também saber como atacar de maneira rápida e eficiente quando se recuperar a bola.

Atualmente, sem particularizar, existem alguns (ou muitos?) jogadores que atuam em grandes clubes ou até em seleções e que dão a nítida impressão de que preferem ficar longe da bola a ter que jogar com ela. Trata-se de jogadores que passam todo o tempo, com muita vontade, marcando e procurando desarmar para, na melhor das hipóteses, tocar a bola para alguém próximo ou atrás no campo quando fizer algum desarme. Aplicação não falta a eles – falta criatividade. Quando recebem a bola, rapidamente procuram se livrar dela dando um passe para trás, sem qualquer perigo para o adversário. Estes jogadores, por mais aplicados que sejam, não fazem a diferença da qual o Brasil precisa.
Formando jogadores técnicos e criativos, o Brasil voltará a ter protagonistas no futebol mundial – atualmente, com todo o respeito que é devido aos demais jogadores da seleção, que são bons (alguns deles são muito bons), só temos um jogador em condição de ser um real protagonista, o Neymar. Outro fator fundamental para a melhoria do futebol brasileiro, não abordado neste texto mas que merece ser citado, a título de conclusão, é que a gestão do futebol nacional, em todas as instâncias, precisa sempre ser feita por pessoas que trabalhem para o futebol, e jamais façam, sobretudo, uso dele. Esta é uma outra história, mas ela está ligada diretamente à formação dos jogadores - sem ela, não haverá as condições devidas para que o futebol brasileiro volte a ocupar o lugar de grande destaque que ocupou por muito tempo.

 

Referências Citadas

ANTUNES, F. Reflexões de Torcedor. Disponível em: http://200.144.182.130/ludens/index.php/pt/destaques/pontos-de-vista/519-reflexoes-de-torcedor-26-10-2015. Acesso em: 22.nov.2015.
CARVALHO, G. L. Impressões e Sugestões de um Brasileiro Fã de Futebol. Disponível em: http://3nacopa.com.br/2014/07/outro-espaco-aberto-para-brasil-e-alemanha/. Acesso em: 22.nov.2015.
SOMOGGI, A. Futebol Alemão x Futebol Brasileiro. Disponível em: http://download.uol.com.br/blogdojuca/Futebol-Alema%CC%83o-X-Futebol-Brasileiro-Amir-Somoggi.pdf. Acesso em: 02.dez.2015.
SOUZA, D. A. L’Horreur. Disponível em: http://200.144.182.130/ludens/index.php/pt/destaques/pontos-de-vista/527-l-horreur-23-11-2015. Acesso em: 29.nov.2015.

 

 

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