topo br

LUDENS

L’HORREUR - 23/11/2015

 denaldo

 

13 de Novembro de 2015. Estava prestes a começar a escrever um artigo abordando a crise de identidade do futebol brasileiro e o estilo de jogo desenvolvido nas divisões de base nos clubes para o site do LUDENS.

Antes, para relaxar, decidi assistir uma partida amistosa entre duas tradicionais seleções europeias, a da França e da Alemanha, no State de France em Paris, e com a presença na tribuna do presidente francês François Hollande.

E... inesperadamente a “roda da História” voltou a girar. O jogo já havia iniciado quando os torcedores no estádio e os telespectadores em suas casas ouviram repetidos estrondos que foram precipitadamente associados aos fogos de artifícios. Pouco depois, os profissionais dos canais televisivos noticiaram que os estrondos haviam sido fruto de ataques terroristas nas imediações do estádio. O que se viu depois foi algo inédito, pelo menos para mim: estávamos presenciando o lado perverso da interatividade. Constatamos que os telespectadores tinham informações que os torcedores comuns no State de France não possuíam. Uma exceção foi o presidente François Hollande que, por motivo de segurança, foi rapidamente retirado do recinto. Por alguma razão, as informações que já estavam circulando na internet não chegaram a esses torcedores e aos atletas em campo. O jogo continuou normalmente, com os franceses fazendo dois gols contra os atuais campeões mundiais, e os espectadores — franceses em sua imensa maioria — comemorando muito aquela vitória. Enquanto isso, nós, os telespectadores, ficávamos sabendo a cada segundo uma nova informação da tragédia que os parisienses estavam vivendo. A perplexidade se misturava à impotência. E, para coroar toda essa tragédia surrealista, ao acabar a partida, os infelizes torcedores franceses foram filmados saindo do estádio cantando a “La Marseillaise”. A realidade chegou de maneira brusca. Ao saber dos atentados, voltaram apressadamente para o interior do State de France, à espera de notícias mais acolhedoras.

O futebol novamente se colocou como uma “janela” para as contradições sociais. Dezessete anos antes, a mesma Paris e o mesmo State de France haviam presenciado a vitória da seleção nacional na Copa do Mundo. A equipe campeã era formada por atletas de diferentes origens étnicas e culturais e parecia trazer como ideia que a “França multicultural” era uma realidade possível. Grande parte dos franceses entendeu a mensagem e foi para as ruas parisienses cantar a “La Marseillaise” e o multiculturalismo francês.

Se em 1998, o futebol foi utilizado para mostrar positivamente um novo projeto de nação francesa; agora, em 2015, a conotação era negativa. Poucas horas depois do jogo entre as seleções da França e da Alemanha, os parisienses ficaram conhecendo a verdadeira dimensão da tragédia: que os ataques acumularam mais de uma centena de mortos e cerca de trezentos e cinquenta feridos; que eles ocorreram em diferentes pontos da cidade; e que visaram sobretudo valores que definiam o estilo de vida francês, como as casas de espetáculos, a boemia nas ruas de Paris e a ida das família aos estádios de futebol.

No dia seguinte, numa carta enviada ao jornal Le Monde, o grupo radical Estado Islâmico assumia a responsabilidade pelos ataques e justificava a escolha do estádio de futebol, além de outros lugares. Segundo a carta, “esses alvos incluíram o Stade de France durante uma partida de futebol — entre os times da Alemanha e França, ambas nações cruzadas — na qual compareceu o imbecil da França (François Hollande) [...]”. Portanto, uma das principais razões para a escolha do dia dos ataques por parte dos terroristas era a realização de uma partida de futebol de grande importância simbólica.

Novas informações foram surgindo. A que mais causava assombro era a de que entre os terroristas e aliados existiam cidadãos franceses.

Muitas perguntas irão surgir nos próximos dias, meses e anos. Algumas mais urgentes: atender os feridos e as famílias das vítimas, capturar os membros terroristas remanescentes, entender como foi organizado o atentado, evitar que um ataque desse tipo se repita, dar uma resposta ao Estado Islâmico e tantas outras. Entretanto outras questões certamente irão ganhar destaque: “Como atuar frente à atual onda migratória do Oriente Médio e do norte da África para a Europa?”; “Há alguma relação entre os atuais migrantes e o ataque terrorista?”; “Como tratar as famílias que já adotaram a cidadania francesa, mas que possuem origem migrante: assimilando-as a sociedade francesa ou relegando-as à periferia parisiense?”; “O que é ser francês?”; “Qual é a França que os franceses querem?”; “Ser a França representada pela equipe multicultural campeã de 1998, ou ser a França representada pelo jogo ocorrido no último dia 13 de novembro, no meio de ataques terroristas e com uma sociedade extremamente dividida?”.

Entre o estarrecimento e o espanto, novamente o futebol possibilita ser “uma fresta” por onde se pode ver as possibilidades e os limites da identidade nacional na França. O futebol faz parte da sociedade francesa e, portanto, está permeado pelas contradições desta mesma sociedade.

 

 

faceyoutubeyoutube

Copyright © 2014 - LUDENS - Núcleo interdisciplinar de pequisas sobre futebol e modalidades lúdicas. FFLCH/USP.