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LUDENS

Reflexões de Torcedor - 26/10/2015

fatima antunes 

             

Assisti aos dois primeiros jogos da seleção brasileira de futebol pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 numa mistura de raiva e desânimo. Sei que não devo esperar por “jogo bonito”, mas continuo exigindo uma apresentação com boa movimentação em campo, troca de passes (corretos, é claro!) e vontade de vencer, assim como os brasileiros que se dispõem a assistir aos jogos. As estatísticas mostram uma atuação mediana em vários quesitos, mas abaixo da média nos cruzamentos e passes longos.

Como todo torcedor brasileiro tem um quê de técnico dentro de si, poderia ousar e apontar uma série de problemas que influem no rendimento da seleção, dos administrativos e estruturais, aos políticos e econômicos. Lembrei-me de uma crônica de Tostão, publicada na Folha de S. Paulo de 8 de outubro de 2000, sob o título de “Técnica, habilidade, criatividade”, em que o tricampeão de 70 trata de aspectos relacionados à formação dos jogadores.

Segundo o cronista, enquanto a técnica pode ser aprendida e aperfeiçoada por meio de treinamentos, a habilidade e a criatividade são características natas a cada jogador e o elemento capaz de distinguir o futebolista mediano do craque – o jogador de desempenho acima da média. Diz:

“A habilidade é pessoal. Finalizar bem é um dos fundamentos técnicos. Em curva, é uma habilidade. Pode ser aprimorada, mas dificilmente aprendida. A criatividade é a capacidade de inventar e imaginar. Não se aprende, mas pode-se ensinar a usá-la. O talento, por sua vez, é a reunião de tudo isso.”

Tostão lembra que muitos jogadores brasileiros obtêm destaque por sua habilidade e criatividade apenas. “Parecem craques, mas não são.” Segundo o cronista, Pelé foi o único, porque reunia todas as qualidades que um jogador de futebol poderia ter: “(...) O Rei reuniu, ao máximo, a técnica, a habilidade, a criatividade e outras habilidades.” O ex-jogador resume a discussão de forma simples: “Quem não foi craque nos campos de pelada, nunca será na vida adulta, nos gramados.”

Com as lentes propostas por Tostão, tento olhar para o futebol arte.

Ao brincar, a criança desenvolve a capacidade de se envolver com algo prazeroso, que, no adulto, será o trabalho. Muitos meninos que cresceram livres e sem regras nos campos de pelada pelo Brasil afora desenvolveram a habilidade e a criatividade. Mais tarde, adolescentes e adultos, aprenderam e desenvolveram a técnica. Garrincha, por exemplo, expressão máxima do futebol arte, formou-se em total liberdade nas ruas e campinhos de Pau Grande, sua cidade natal. Também nas ruas e campos de várzea nasceu o futebol arte, ao contrário do futebol inglês, que se consolidou no interior das escolas, espaço da disciplina.

O futebol arte, que tornou o futebol brasileiro mundialmente conhecido, sempre se destacou pela habilidade e criatividade de seus jogadores. A técnica, embora importante, vinha em segundo plano.

Nos campos de várzea, a criatividade do futebolista brasileiro foi “ensinada” e “aprendida”, como numa brincadeira. Lances de malandragem ou esperteza foram transmitidos de uma geração a outra, aperfeiçoados, cada um acrescentando à experiência repassada por um jogador mais velho a sua própria, então aprimorada. O futebol arte tornou-se uma herança cultural, que não se herda pelo sangue e que também não é própria de determinada raça, como apregoavam as ideologias da mestiçagem, mas pela experiência individual e coletiva. Em boa parte, a criatividade do jogador brasileiro foi culturalmente adquirida e aprimorada.

A geração que hoje veste a camisa amarela começou sua formação nos anos 1990, nas inúmeras “escolinhas” espalhadas pelo Brasil, anunciadas como locais privilegiados de formação dos craques do futuro e da modernidade no futebol. O tempo mostrou que há escolinhas mais preocupadas em produzir bens de exportação e vendê-los com o selo “made in Brazil”, do que promover espaços lúdicos. Hoje, temos jogadores cuja formação técnica começou na infância e que não são mais artistas da bola, como o mundo acostumou a ver os jogadores brasileiros.

Brasileirinhos estão aprendendo a técnica precocemente nas escolinhas de futebol, justamente na fase de suas vidas em que deveriam estar brincando e sonhando, desenvolvendo sua habilidade e criatividade. Esta pode ser uma das chaves para entendermos parte do que já acontece com o futebol brasileiro e sua seleção.

Tardiamente, estou me tornando uma torcedora sem ilusões.

 

 

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