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As roupas esportivas e o nosso cotidiano: muito além do binarismo de gênero - 12/10/15

wagner xavier

Você já se pegou pensando que roupa esportiva seria melhor para uma caminhada ou para aquela sua aula de ginástica preferida na academia em que frequenta? Ou se deparou pensativo, defronte a uma estante repleta de calçados atléticos, das mais variadas marcas e cores, que oferecem tecnologia, design e conforto, sem saber qual seria o melhor para o seu pé ou para o esporte que pratica?

Pois bem. Em que pese estarmos envoltos por tais situações e decisões no dia-a-dia, em geral, não pensamos sobre roupas e equipamentos esportivos, algo que muito nos mobiliza.

Em realidade, se tomamos a dimensão do mercado, chegaremos à constatação que buscamos tais roupas e equipamentos devido a uma necessidade cultural instalada pela “indústria do consumo”. Isto é, para se jogar futebol necessitamos de uma chuteira com certas características, para correr necessitamos de uma camiseta que drene suor, para dançar balé necessitamos de uma sapatilha de ponta, ou para simplesmente pedalar nossa bicicleta necessitamos de uma bermuda especial, com revestimento de espuma nas laterais das pernas e suporte protetor para os glúteos. São necessidades artificiais, criadas pela “cultura” (econômica) para melhor desempenho da prática esportiva, digamos assim.

Além disso, o que se imprime nestas roupas e equipamentos esportivos é uma dimensão generificada: há roupas para “mulheres” e outras para “homens”. Sejam por cores distintas, cortes diferenciados ou tamanhos, tal dimensão de gênero parte do pressuposto de um mundo social binário, dividido em dois grandes grupos de sujeitos sexuados, sem levar em consideração “desidentificações” (quando um corpo biológico não se identifica com o atributo de gênero/sexo a ele instituído) ou mesmo que entre nós podem co-habitar múltiplos gêneros, que desempenham suas sexualidades de formas diversificadas.

Como Elisabeth Wilson (1985) destacou, parece tão evidente que trajes mantenham relações imbricadas com a sexualidade que, em geral, essa postulação não é colocada em causa ou questionada. Por isso é comum o frisson sobre “roupas de homens” e “roupas de mulheres”. E o mundo dos esportes, por sua vez, seguem a mesma lógica diferenciando “roupas e equipamentos masculinos” e “roupas e equipamentos femininos”.

Minha intenção neste texto, então, é comentar sobre vestimentas e acessórios esportivos, em dadas ocasiões festivas específicas, para tentar problematizar tais assignações de gênero, que se assentam em bases fixas e binárias. São fatos etnográficos observados nas chamadas “festas dos atletas”, ocorridas em meio a competições esportivas realizadas para pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros). Em tais oportunidades, observei roupas esportivas ditas masculinas e corpos tidos como masculinos, no contexto de um clube de prática de sexo, que me disseram muito sobre funções sociais e signos sexuais, de roupas e gêneros.

Na festa que etnografei só era permitida a entrada quem estivesse “vestido de atleta” ou portasse consigo roupa esportiva a ser usada dentro do clube. Ou seja, a política dos chamados “códigos de vestimenta” era uma regra a ser efetivamente observada. Os dresscodes eram obrigatórios e havia esforços no sentido do cumprimento desta determinação. Tomando emprestados termos de Carmen Soares (2011), que estudou as transformações no vestuário esportivo de corpos masculinos e femininos entre 1920-40, as roupas usadas pelos sujeitos, nestas ocasiões festivas investigadas, poderiam ser tomados como verdadeiros “indicadores sexuais”, simbolicamente retratando dados signos codificados, dependendo das situações sociais tomadas.

Tais trajes eram de neoprene, nylon, microfibra, leather (couro) ou mesmo outras fibras artificiais (como a fibra de bambu), com designs e cores bastante contemporâneas. As famosas cuecas com abertura traseira (chamadas jockstraps) também se faziam presentes, quando não representativas de um clube de futebol ou bandeira de um país, apareciam em couro monocromático (preto) e, geralmente, costuradas com um zíper na parte frontal.

A festa assemelhava-se a um baile a fantasias. Havia tenistas de branco portando raquetes. Jogadores de futebol uniformizados com camisas, meiões e chuteiras do Barcelona. Nadadores e suas distintas sungas da Speedo, Nike e toda uma série de marcas. No meio da multidão, muitos rapazes com shorts curtos ou bermudas, semitransparentes no geral, que deixavam propositalmente marcados os órgãos genitais.

Indivíduos com fantasias simples como calções de futebol ou sungas, torsos desnudos e, em geral, sem “suporte atlético” ou roupa íntima (cuecas), eram os que chamavam mais atenção dos frequentadores. O jogo erótico se estabelecia entre o “seminu” e o “vestido”, alçando os trajes esportivos a uma categoria de responsáveis pelos fetiches instituídos na “paisagem corporal”. Em que pese houvesse nesses corpos uma dimensão de desejos instituídos, era interessante observar como que as peças de roupas ganhavam certa independência ou autonomia. Explico melhor: segundo Alfred Gell, um teórico britânico, as fronteiras entre pessoas e objetos são borradas pelo processo de apropriação (ou de objetificação de algo), fazendo com que a agência não esteja restrita a pessoa que porta/usa o objeto (no caso, a roupa esportiva), mas se estenda aos artefatos em si, pois mesmo em se tomando em conta que são secundários e dependem da ação humana para se realizarem como tais, eles acabam se sobressaindo.

Para ele, talvez as roupas sejam dotadas de uma agência específica, isto é, “as peças tornam-se insubstituíveis ao aderirem ao corpo de modo específico, agindo sobre suas formas” (Gell, 1988, p. 126). Para Isadora Lins França (2012), que estudou o consumo entre homens que fazem sexo com outros em três distintos espaços paulistanos de homossocialização, ao passo que para os sujeitos em uma boate de classe média-alta a cueca é sinal de status e poder econômico (principalmente quando fica à mostra, acima da cintura da calça), para os ursos (homens peludos e gordos), numa outra festa alternativa específica, a cueca não diz nada e tem menor importância. Isso se deve ao apelo sexual e ao sinal distintivo que tem (ou não tem) a cueca “de marca” para um ou outro grupo.

Ora, o que percebi, então, é certa “fetichização” da roupa esportiva, dentro ou fora de seu contexto, que implica em consumo, apropriação, exposição, rejubilamento, e êxtase, fases subsequentes a partir da compra e uso de um acessório ou traje relacionado ao mundo dos esportes. Em que pese a cueca, no caso comentado, demarcar uma suposta masculinidade hegemônica de alguns sujeitos (conferida pelo uso arrojado que se faz do acessório no contexto social festivo), ela se autonomiza do corpo, podendo, inclusive, conferir “status mais masculino” a qualquer corpo que a use. Como “indicadores sexuais” (SOARES, 2011), muitas vezes as roupas esportivas usadas nas festas reforçam os estereótipos dominantes relativos à masculinidade hegemônica, e isso é reafirmado em discursos e práticas corporais e sexuais. Mas também considero que haja dissonâncias a partir de corpos, discursos e mesmo vestimentas que não se rendem aos estereótipos dominantes, sexualizados, erotizados do binarismo de gênero.

Portanto, as considerações antropológicas aqui endereçadas sobre roupas esportivas na busca de uma sexualização dos corpos, “fetichização” dos desejos e afetos, erotizando cenários e situações, além de identificar como operam o que chamo de “convenções de gênero” entre participantes de ocasiões festivas específicas, apontam para um “corpo esportivizado”, que ao contrário do que se possa pensar a partir dos ditames estabelecidos pelo esporte, pode nos oferecer pistas para reconsiderar o próprio corpo (masculino ou não tão masculino), seja na moda ou seja dentro/fora das ações práticas – em situações festivas ou esportivas. Inclusive, tal corpo pode propor o borramento de fronteiras entre as “práticas sexuais específicas” e as “convenções eróticas” baseadas no gênero.

 

Referências

FRANÇA, Isadora Lins. Consumindo lugares, consumindo nos lugares: homossexualidade, consumo e subjetividades na cidade de São Paulo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.

GELL, Alfred. Art and agency . Oxford: Oxford University Press, 1988.

SOARES, Carmen Lúcia. As roupas nas práticas corporais e esportivas : a educação do corpo entre o conforto, a elegância e a eficiência (1920-1940). Campinas: Autores Associados, 2011.

WILSON, Elizabeth. Enfeitada de Sonhos. Lisboa: Edições 70, 1985.

 

 

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