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Futebol feminino no Brasil: entre trincheiras e conquistas - Giovana Capucim - 05/10/2015

 Giovana pontos de vista

No ano de 2015 pela primeira vez na história circulou no Brasil um álbum de figurinhas da Copa do Mundo FIFA de futebol feminino. Na edição anterior do torneio, em 2011 com sede na Alemanha, o livro ilustrado ficou restrito àquele país. Essa novidade não foi a única a demonstrar um ganho de espaço para as mulheres do futebol neste ano: houve também o lançamento de uma linha de chuteiras destinada às mulheres e o aparecimento de seleções femininas no popular game “FIFA” na sua versão para a temporada 2015/2016. Esses são alguns exemplos de como o mercado do futebol tem percebido a potencialidade da presença feminina no esporte. Não parece haver em nenhum dos casos nenhum interesse em incentivar o crescimento do futebol feminino, mas sim, em aumentar os proventos das empresas. Entretanto, é inegável que isso acaba por promover uma maior visibilidade das mulheres na modalidade. Este, aliás, é o objetivo de uma iniciativa do Museu do Futebol inaugurada neste ano que incorporou diversas novidades ligadas ao futebol feminino em seu acervo permanente, além de ter organizado uma exposição temporária sobre o assunto e expôs a memória de grandes atletas da modalidade que até então não tinham espaço.

O momento vivido por esta modalidade atualmente no Brasil aponta que esta visibilidade é bastante oportuna. Se há alguns anos atrás se reivindicavam campeonatos, hoje eles existem. Este ano até mesmo alguns times tradicionais, chamados “de camisa” passaram a investir no futebol de mulheres. Esses avanços, contudo, não permitem que a modalidade atinja um nível satisfatório. É preciso ainda muito investimento e a criação de modelos de torneios compatíveis com a realidade deste futebol. Basta dizer que a equipe campeã mundial no ano passado (São José) disputa junto com outras que surgiram neste ano foram formadas por meninas que eram “peladeiras” até poucos meses atrás, criando um grande desnível competitivo.

O São José, aliás, talvez seja exemplar da falta de vontade política que cerca o futebol feminino no Brasil. Uma equipe que, segundo o próprio clube, iniciou sua formação em 2010, além de diversos títulos neste intervalo, venceu o mundial em 2014 e teve sua equipe desestruturada. Não por clubes europeus que vieram atrás das atletas. Não por outras equipes. Sequer pelo próprio clube. Quem levou as atletas do São José foi a CBF. De acordo com os contratos assinados pela entidade nacional que lhe cedia o direito de organizar no Brasil a Copa do mundo FIFA de futebol masculino, obrigatoriamente uma parte do lucro deste evento seria destinado ao futebol feminino. A CBF cumpriu o acordo da maneira que melhor lhe coube: ao invés de investir em clubes e nas categorias de base que poderiam gerar campeonatos nacionais fortes e, por consequência, uma seleção melhor estruturada, a entidade criou uma “seleção permanente”.

Como não poderia deixar de ser, boa parte do elenco deste selecionado veio da equipe joseense. Assim, todo o investimento e trabalho de anos por parte do clube teve seus louros tomados pela própria entidade que gere o futebol no Brasil. A ideia de uma “seleção permanente” visava uma melhor preparação para a Copa do Mundo deste ano, e para as Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016. No primeiro caso o Brasil não passou das oitavas de final da competição. De toda forma, qualquer medalha que a seleção nacional conquiste será um indício de sucesso do projeto da “seleção permanente”, ocultando todo um trabalho dos clubes que, sem apoio da confederação, levaram adiante a formação de um time de futebol feminino.

Não é de hoje a má vontade institucional com relação ao futebol praticado por mulheres no Brasil. Em 1965 o Conselho Nacional de Desportos proibiu a prática de determinadas modalidades esportivas por mulheres, dentre as quais o futebol (de campo, areia e salão). Esta legislação vigorou até 1979, mas apenas em 1983 é que a CBF regulamentou oficialmente a prática deste esporte por mulheres. A ideia original da proibição vinha de um decreto-lei da Era Vargas, de 1941, que impedia as mulheres de praticarem atividades esportivas “inadequadas à sua natureza”. O que estava por detrás disto era o entendimento de que a função da mulher na sociedade era de gerar e educar filhos para a nação brasileira e que a prática de esportes poderia ser prejudicial a seu sistema reprodutor ou mesmo a sua moral.

A primeira mulher a ser reconhecida oficialmente como árbitra na História do futebol mundial foi uma brasileira chamada Léa Campos que também teve sua trajetória dificultada pela CBF. Ao finalizar seu curso, como qualquer pessoa, Léa não recebeu sua certificação de árbitra por ser mulher. Por diversas vezes recorreu à entidade máxima do futebol nacional e recebeu a mesma negativa como resposta. O caso de Léa teve uma resolução que nos parece improvável. Amiga de militares, ela conseguiu encontrar-se com o então presidente da República, Emílio Médici, e contou-lhe sua história. O presidente, então, escreveu de próprio punho uma carta à CBF requerendo a entrega do certificado à Léa Campos. Ela pode, então, embarcar para o México onde arbitrou a Copa de Mundo de Futebol Feminino, organizada sem os auspícios da FIFA. Esta instituição também adiou o quanto pode a incorporação do futebol praticado por mulheres aos seus quadros. E isso foi decisivo para que a CBF justificasse a não regulamentação da atividade até 1983 no país, atribuindo-lhe ares de ilegalidade, mesmo depois da revogação da proibição.

Apesar dos percalços ao longo da história do futebol feminino no Brasil, as mulheres nunca deixaram de praticar a modalidade e de lutar por ela, de maneira que o ano de 2015 nos apresentou uma série de boas notícias. Entretanto, os processos históricos acumulam avanços e retrocessos concomitantes, sendo necessário permanecer atento para que não se percam os espaços já conquistados. Ainda que com objetivos, na maioria dos casos, impregnados de interesses em curto prazo, meramente comerciais, a visibilidade sobre o futebol feminino vem crescendo, principalmente por parte de certos grupos da iniciativa privada. O governo brasileiro também tem se preocupado com a organização de torneios nacionais nos últimos anos. Assim, parece que o longo caminho traçado pelas mulheres do futebol no século passado ensina e apresenta um futuro bastante promissor, principalmente porque as praticantes e entusiastas da modalidade continuam a construir aprimoramentos na modalidade a cada dia.

 

 

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