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Política e Democracia em Branco-e-Preto. Por Rodrigo Accioli Almeida

Na noite de quarta-feira, 30 de março de 2016, o encontro “Futebol e política: eventos da história do Santos FC” realizado no Auditório de História da FFLCH-USP trouxe um debate recheado de temas políticos e sociais através de momentos históricos do Alvinegro Praiano. A mesa composta por Guilherme Nascimento, Odir Cunha, André Carreira e pelo Prof. Flávio de Campos abordou temas como o papel do Santos nos conflitos em Benin e no Congo em 1969, os diferentes papéis políticos exercidos por diretoria, jogadores e torcedores durante o período da Ditadura Militar brasileira, além de um panorama histórico e geográfico da cidade de Santos no início do século XX. Outro fator importante foi a inserção do público, este comparecendo e praticamente lotando o anfiteatro, com falas importantes e dando voz a quem pouco espaço tem na universidade, como membros de torcidas organizadas.

Foto 1

Odir Cunha, jornalista e pesquisador da ASSOPHIS, deu início ao debate descrevendo papel exercido pelo Santos FC nos conflitos em Benin e na fronteira do Congo com antigo Zaire (atual República Democrática do Congo), ambos em 1969. Por ordem cronológica, o primeiro evento onde o Santos trouxe paz momentânea, segundo o pesquisador, foi a travessia entre Brazzaville na República do Congo para Kinshasa, capital do Zaire, em 19 de janeiro de 1969. O Alvinegro Praiano, precisando atravessar a fronteira através do rio que divide as duas capitais, conseguiu assegurar uma travessia pacífica em embarcações das forças armadas do Congo, garantindo um momento de paz suficiente para que os barcos atracassem em Kinshassa e voltassem à sua capital com tranquilidade . O segundo, contou Odir, ocorreu dia 26 de janeiro de 1969, com o arrefecimento do conflito que assolava Benin e sua população. Por conta do Santos FC, especialmente da presença de Pelé, a população pode ter momentos de paz, sem nenhum confronto registrado durante a passagem do time por Benin.

O pesquisador da ASSOPHIS, Guilherme Nascimento, trouxe em sua fala momentos históricos do Santos FC durante o período da Ditadura Militar no Brasil, argumentando que diretoria, jogadores e torcedores tinham posturas políticas totalmente diferentes. A cúpula santista, por dinheiro, foi capaz de enviar o time ao Estádio Nacional do Chile para festejos do General Pinochet em um local onde presos políticos eram torturados e encarcerados, sendo a festa feita justamente para comemorar a classificação chilena à Copa de 1970 depois da recusa da União Soviética em jogar em um estádio com presos políticos. Enquanto isso, os jogadores em sua maioria se focavam apenas em jogar futebol (sendo Afonsinho um exemplo de exceção), cabendo apenas à torcida uma postura contra o regime instalado no país. Guilherme, inclusive, fez uma correção histórica ao mostrar que a torcida do Santos, além de ajudar na confecção da famosa faixa com os dizeres “Anistia ampla geral e irrestrita” erguida pela torcida do Corinthians durante um clássico contra o próprio Peixe, ainda ergueu uma faixa com os mesmos dizeres em um clássico contra o Palmeiras.

Faixa
IMAGEM DA FAIXA (fonte: Folha de São Paulo)

André Carreira, doutorando em História Social, apresentou sua pesquisa sobre a cidade de Santos no início do século XX, remontando a lógica urbana e as questões sociais da cidade no período. O público pode, através da fala de André, ter idéia de uma mancha urbana muito mais voltada ao porto que às praias, sendo Santos uma cidade composta por vários grupos sociais diferentes, especialmente imigrantes europeus de diferentes nacionalidades (espanhóis, italianos, portuguese etc). Com isso, foi o possível entender o contexto de criação do Santos FC em 1912 e de outras agremiações esportivas da cidade, como o já extinto Internacional e a AA Portuguesa, conhecida comumente como Portuguesa Santista, fundada também na década de 1910.

Após as falas, o Professor Flávio de Campos ressaltou a importância de um evento que visa o debate político e social, especialmente em um contexto onde a democracia brasileira está posta em xeque. Seguiu-se, então, a abertura de falas ao público, sendo estas em sua maioria questões relacionadas ao posicionalmento parcial da imprensa, à política interna atual do Santos FC e como é construída a narrativa histórica do clube através do tempo.

Foto 2

Entre assuntos mais amplos, houve um pequeno debate com posicionamentos sobre a tentativa de golpe contra o mandato da Presidenta Dilma Rousseff e a fala de Alexandre Cruz, ex-presidente da Sangue Jovem do Santos e membro da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (ANATORG). Alexandre remontou a história da associação e mostrou os esforços no sentido da pacificação das torcidas e da conscientização do torcedor organizado de seu papel dentro e fora dos estádios. Foi um momento ímpar, pois talvez pela primeira vez a universidade teve contato com uma outra visão acerca das torcidas organizadas e das políticas públicas, com argumentação feita por quem de fato constrói e vive a rotina das torcidas organizadas. 

Ao término do evento, torcedores alvinegros junto aos membros da Santos FC Antifascista, Torcida Jovem do Santos, Sangue Jovem do Santos e Punk Santista hastearam faixas no vão do prédio da História/Geografia, entoando cânticos de arquibancada e se posicionando contra o golpe na democracia.

Foto 3

 

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