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Palestra Popolare: Amor ao Boxe, ódio ao fascismo. Por Breno Macedo e Raphael Piva

Uma ampla e comprida rampa para automóveis me leva até o subsolo de um prédio antigo, onde outrora fora o estacionamento do edifício. À medida que caminho pela rampa, que faz uma curva, um grafite surge na parede surrada. É um desenho tosco, simples, que mostra dois boxeadores trocando socos e os escritos “Quadraro Boxe”. Um dos boxeadores retratados usa um pano no rosto, algo impensável para uma luta de boxe, mas muito usado em manifestações populares. A curva da rampa continua, e à medida que ela vai descendo, um som de pancadas e gritos começa a se fazer ouvir cada vez mais forte. É o som típico de um ginásio de boxe, onde diversos barulhos independentes se unem para formar uma sonoridade única: golpes no saco de pancada, gemidos dos boxeadores quando desferem seus socos, o ranger das ferragens que suportam a aparelhagem, os gritos dados pelo treinador para incentivar e orientar aquele grupo de cerca de trinta pessoas que treina exaustivamente. De repente, o sonido de um apito surge e toda a sinfonia barulhenta se esvai. Fim de round. Intervalo. Apenas o ranger das ferragens continua, causado pelos sacos que ainda balançam devido a inércia que age sobre eles. Um minuto depois, o apito se faz ouvir novamente e a orquestra recomeça, aos gritos de “Dai, dai dai!! Andiamo! Andiamo” do jovem treinador, um rapaz de cabeça raspada e bigode fino sobre a boca.

À primeira vista trata-se de apenas uma rústica academia de boxe, algo tão comum em Nova York, Buenos Aires, Londres ou São Paulo. Mas alguns detalhes demonstram não se tratar de uma academia comum. Na parede, um grafite de Che Guevara olhando o horizonte com sua famosa frase “Hasta la victoria siempre”. Em outra parede, quem está pintado é Emiliano Zapata, lendário revolucionário mexicano. Uma pixação na parede imunda perto do ringue diz “Antifa Boxe”, referência ao Antifascismo. Outro escrito no muro diz “NO TAV”, uma negação ao Treno de Alta Velocità, o trem bala, advento da alta tecnologia do primeiro mundo que é questionado e combatido por destruir o meio ambiente por onde ele passa. Uma foto de Muhammad Ali ilustra um pôster com os dizeres “FIGHT AGAINST RACISM”. Aquela não é uma academia de boxe comum. Aquela é uma Palestra Popolare italiana, um ginásio de boxe carregado de ideologia, luta política e movimento social. Não é Nova York, Londres nem São Paulo. É Roma, e o bairro é Quadraro, periferia da histórica capital italiana.

Quarto país a conquistar mais medalhas olímpicas de boxe na história, a Itália possuiu uma forte tradição no pugilismo. A nível de comparação, a Itália possui vinte e nove campeões mundiais de boxe profissional, enquanto o Brasil possuiu apenas quatro. O primeiro boxeador italiano de sucesso internacional foi Primo Carnera, que conquistou o título mundial dos pesos pesados em 19331. O gigante de 1,97 metro de altura, algo raríssimo para a década de 1930, fez muito sucesso também nos Estados Unidos, onde travou batalhas épicas com Joe Louis e Max Baer, ídolos norte-americanos.

Apesar da grande popularidade do boxe em toda península itálica, durante muito tempo este esporte esteve atrelado a ideais fascistas, o que afastava os simpatizantes de orientação política de esquerda dos ginásios onde se praticava a modalidade. “Nós do movimento de esquerda evitávamos irmos nas academias de boxe porque era infestada de gente racista, xenófoba, homofóbica”, diz Lorenzo Catalano, mentor de uma das tantas palestras popolares de Roma, em seu depoimento sobre o envolvimento entre política e boxe na Itália. Valores como virilidade, honra, supremacia racial, nacionalismo e xenofobia, alimentados pelos fascistas, eram cultivados entre alguns praticantes de boxe, reforçando assim a imagem de um ‘esporte fascista’. Porém, mesmo sendo taxado pelos anarquistas, socialistas e comunistas como uma prática aliada ao fascismo, o boxe reunia apaixonados que não se orientavam com as ideias propagadas pelo regime de Benito Mussolini. Buscando manter a prática do pugilismo sem terem que frequentar ambientes dominados por nazi-fascistas, os esquerdistas italianos fundaram suas próprias academias: as palestras popolares (academias populares, no plural em italiano Palestre Popolari).

Um fator que colaborou para o nascimento das palestras popolares foi a existência de diversos centros sociais autogeridos espalhados pela Itália. O surgimento destes primeiros centros sociais, durante a dedada de 1970, relacionava-se diretamente às transformações e à busca por novas estratégias políticas entre a militância de esquerda e a classe operária italiana. A vida comunitária, através dos conselhos de bairros, passava a ser compreendida cada vez mais em seu papel político. Desta maneira, muitos imóveis e terrenos em desuso foram ocupados e transformados em espaços comuns de convivência que comportavam uma série de atividades, como escolas e bibliotecas, que visavam suprir serviços sociais inexistentes2.

As palestras popolares começaram a surgir nos anos 1990, e deixavam bem claras suas posições políticas, entoando temas antifascista, antirracista e anticapitalista. Inicialmente, a proposta era oferecer a prática de boxe e outras modalidades esportivas para a população, seguindo a ideia de “esporte social”. A forma como o esporte foi tratado pelo regime socialista em Cuba serve de modelo para as palestras popolares, já que buscam utilizar o esporte e a atividade física como instrumento de melhoria da qualidade de vida da população em geral, incentivando também a sociabilidade3. Desta maneira, além da busca de um local apropriado para praticar esportes onde não houvesse relações com ideais fascistas, as palestras popolares também buscavam uma alternativa à mercantilização da prática esportiva. A Palestra Popolare San Lorenzo, em Roma, é uma das primeiras do país, sendo fundada em 1997. A academia ocupou um espaço que encontrava-se abandonado no centro de Roma, próximo à estação central, para um ano depois conseguir um contrato de usufruto do local.

Inicialmente, a Palestra Popolare San Lorenzo oferecia treinamentos de boxe apenas objetivando o condicionamento físico dos seus alunos, a melhoria na qualidade de vida, o “esporte social” ou “esporte de participação”. Porém, não demorou muito tempo para que alguns dos amantes da ‘nobre arte’ quisessem se arriscar em competições oficiais, e a San Lorenzo foi a primeira Pal Pop a participar de torneios de pugilismo, trabalhando assim com o “esporte de rendimento”. Pouco a pouco o número de competidores foi crescendo, assim como nas outras palestras popolares que vieram posteriormente à San Lorenzo, e atualmente é grande o número de competidores de boxe que treinam em palestras popolares.

Lorenzo Catalano é o fundador da Revolution Palestra Popolare, academia que fica no famoso bairro romano Cinecittà. Catalano começou a praticar boxe no início dos anos 2000 na San Lorenzo por um motivo curioso. Morador de uma ocupação popular vizinha à palestra, onde não havia energia elétrica, Catalano se matriculou no curso de boxe para poder usar os vestiários da academia para tomar banho quente durante o rigoroso inverno italiano. Começou a praticar boxe e foi fisgado pelo esporte, pois pouco tempo depois já estava disputando campeonatos representando a Pal Pop. Trabalhando como pizzaiolo no restaurante popular do Centro Social Corto Circuito4 e professor de boxe na Pal Pop do mesmo centro social, Lorenzo viu a possibilidade de fundar sua própria Pal Pop quando um antigo mercado do bairro pegou fogo. O amplo prédio ficara abandonado por mais de vinte anos, em meio a um bairro pobre, e Catalano visualizou a possibilidade de transformar aquele espaço obsoleto em uma bela academia. Com a ajuda de alguns amigos Lorenzo derrubou os tijolos que lacravam as paredes e começou um demorado e trabalhoso processo de transformação e ressignificação daquele espaço, sem autorização legal de nenhum órgão público ou privado. Uma ocupação, como é tão comum nas palestras popolares e nos centros sociais italianos. Depois de dois anos de reformas, trabalho e investimento, aquele espaço abandonado, fétido, tomado por ratos, cheio de infiltrações, se transformou em uma bela academia onde pessoas praticam boxe, jiu-jitsu, balé clássico, dança contemporânea, yoga, pilates. A estrutura física da Revolution impressiona, destoando do aspecto simplista das outras palestras popolares. O lugar se assemelha com uma luxuosa academia particular, com aparelhagem nova, vestiários limpos e treinamento de alto nível. “Meu objetivo é fazer da Revolution Palestra Popolare também um espaço de esporte de alto rendimento, de excelência esportiva, e não apenas de esporte social. Mas ainda somos uma palestra popolare. Não há discriminação econômica e todos são bem vindos: imigrantes, refugiados, negros, mulheres, ciganos, judeus, árabes, gays, crianças, velhos. Só não aceitamos os fascistas”.

Em Roma existem dezenas de outras palestras popolares, dentre as quais se destacam a Quadraro e a Valério Verbano. A Quadraro fica no bairro homônimo, na periferia de Roma, situada no subsolo de um prédio onde outrora fora um estacionamento, como foi descrito no início deste artigo. Já a Valério Verbano é uma ocupação de um prédio abandonado, em história que se assemelha com a das outras Pal Pop. A forma e significação das ocupações e do espaço físico das academias foi estudada no artigo Palestre Popolari: tra spazio, incorporazioni e resistenza, escrito por Isabel Farina, Alfio Lanati e Gianmarco Peterlongo, estudantes de Ciências Sociais da Università di Torino. O artigo encontra-se disponível na internet5.

Nas palestras popolares são cobradas mensalidades a preços módicos, como 20 ou 30 euros, enquanto em academias particulares a faixa de preço é o dobro disso. A mensalidade não é cobrada visando o acúmulo de capital aos ‘donos’ ou aos professores das modalidades, e sim a manutenção da academia e o trabalho empenhado pelo profissional que atende os alunos. As modalidades oferecidas são em sua maioria esportes de combate: boxe, muay thai, brazilian jiu-jitsu, kick boxing, capoeira. Porém, atualmente tantas outras atividades são praticadas nas palestras, tais como danças, yoga, pilates, treinamento funcional, cross fit, entre outros. Existem palestras popolares espalhadas por toda a Itália, em cidades como Milão (Hurricane Pal Pop), Livorno (Fortitude), Torino (Antifa Boxe), Bari (Pal Pop Mohamad Tahiri), Bologna (TPO Pal Pop, Teofilo Stevenson), entre outras.

A Palestra Popolare San Lorenzo hoje se auto define como “(...) uma academia profissional do ponto de vista de treinamento (os numerosos resultados obtidos em nível de competições amadoras demonstram) e de estrutura, onde se pode praticar esporte de forma saudável, fora daquela regra de mercado que cotidianamente invadiu o mundo do esporte, sem discriminação econômica, de sexo, de raça”6. Este ideal anticapitalista e a favor da diversidade humana é a orientação ideológica de todas as Pal Pop espalhadas pela Itália. Desta maneira, o esporte torna-se um importante aliado na luta contra o fascismo, a intolerância, o racismo, a xenofobia e a favor da diversidade. Seguindo o caminho de enfrentamento e confronto direto, tal como numa luta de boxe, as palestras popolares não tem medo de erguerem suas bandeiras ideológicas, lutando por um mundo livre da discriminação e repleto de liberdade.

 

 

[1] FLEISCHER, Nat. ANDRE, Sam. A Pictorial History of Boxing. London, Hamlyn. 1959;

[2] DAY, Richard J. F. Gramsci is Dead: anarchist currents in the newest social movements. Pluto Press: Londres, 2005;

[3] LIGABUE, Giuni. GREGORIS, Chiara. Pugni e Socialismo: Storia Della Boxe a Cuba, Roma, Red Star Press, 2015;

[4] Via Filipp Serafini, 57, Cinecittà, Roma;

[5] http://www.academia.edu/9837152/Palestre_Popolari-tra_spazio_incorporazione_e_resistenza

[6] http://www.untagliosolidale.org/nuova-iniziativa-palestra-popolare-san-lorenzo/

 

FOTOS

1 Lorenzo Catalano, fundador da Revolution Palestra Popolare – arquivo pessoal
Revolution Palestra POpolare – arquivo pessoal 2
3 Palestra Popolare Quadraro Boxe – foto de Marco Felli
Palestra Popolare Quadraro Boxe – foto de Emanuel Lenza 4
5 Palestra Popolare Valério Verbano - divulgação
Dia de competição na Palestra POpolare San Lorenzo - divulgação

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7 Porta de entrada da Pal Pop San Lorenzo - divulgação
Cartaz de evento da Antifa Boxe Torino - divulgação 8

 

 

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