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Rúgbi em Moscou e o desafio dos novos terrenos para um velho esporte (Por Victor Sá Ramalho Antonio)

A experiência de torcer no futebol varia notavelmente entre cada país e, dentro de cada país, entre regiões. Tal fenômeno está voga nos estudos acerca de sociologia do esporte, entretanto, a experiência das torcidas em outros esportes coletivos, ainda que já fruto de análises em alguns casos, ainda carece de maior investigação, dada a gama de modalidades ainda pouco exploradas sistematicamente.

O rúgbi é uma dessas modalidades coletivas que ainda carece de maiores investigações acerca de seus torcidas e, mais ainda, quando tomados países ou regiões onde o rúgbi apenas recentemente cresceu, dentro de um processo de expansão desse esporte experimentado fortemente desde sua profissionalização mundial, em 1995, e intensificado com o anúncio da entrada de sua modalidade reduzida, o seven-a-side, nos Jogos Olímpicos de 2016.

Tive a oportunidade de entrar em um desses espaços onde o rúgbi avançou fortemente nos últimos anos, atingindo o pleno profissionalismo em seu campeonato doméstico: a Rússia. No último mês de junho, nos dias 28, 29 e 30, o estádio Luzhniki, famoso estádio olímpico de Moscou, que recebeu os Jogos Olímpicos de 1980, foi palco para a Copa do Mundo de Sevens, competição realizada de quatro em quatro anos entre as 24 melhores seleções masculinas e as 16 melhores femininas do mundo no seven-a-side. O Mundial de 2013 foi o último antes da entrada do sevens nos Jogos Olímpicos, e por isso foi envolto pela expectativa de como estão as principais forças do sevens mundial e de como países emergentes estão se preparando com vistas para as medalhas olímpicas. Não por acaso, o International Rugby Board apostou em Moscou como a sede do torneio.

Desde os primeiros dias que estive em Moscou, a discreta presença do evento nas ruas da cidade chamou a atenção. No metrô moscovita, um evento de motocross e o Mundial de Atletismo - que seria realizado em julho no mesmo estádio do Mundial de Rugby Sevens - marcavam presença, mas a Copa do Mundo de Sevens não. A publicidade no aeroporto e o evento de divulgação realizado na Praça Vermelha na véspera do pontapé inicial foram as únicas iniciativa palpáveis identificadas. O resultado foi um público decepcionante no estádio.

Decerto, nas belas e quentes tardes do verão russo, o rgúbi não foi a primeira opção de lazer escolhida pelos moscovitas. Em momento algum dos três dias de competição, mais do que 15 mil pessoas estiveram presentes no Luzhniki. E, a olho, era evidente que ao menos metade do público era de estrangeiros - que também não compareceram em peso ao evento, que coincidiu com importantes eventos do rugby de 15 jogadores, muito mais prestigiado nos países que são potências do rúgbi. Se entre ir à Rússia de Putin e ir à Austrália ou à Nova Zelândia era a dúvida dos rugbiers europeus endinheirados, em plena crise econômica, a opção pela Oceania ou por ficar em casa assistindo tudo pela TV se fez mais forte. As presenças mais notáveis nas arquibancadas eram os africanos - com uma trupe animada de quenianos, sedentos por verem seu país brilhar no maior palco do sevens mundial, e os sul-africanos, esperançosos pelo único título que resta à prateleira do país dos Springboks - e os oceânicos, com neozelandeses, fijianos e samoanos marcando presença forte para apoiar suas seleções, favoritas na competição. Ingleses, claro, estavam lá aos montes, mas a ausência de franceses e australianos, que não valorizam o sevens, ou de argentinos, inibidos pela distância e pelos custos, era gritante.

Com tal diagnóstico, o sucesso do evento em termos de público recaiu na presença de russos. Eles estavam lá, sim, mas era evidente que boa parte daqueles que foram ao Luzhniki já eram da comunidade do rúgbi do país, que cresceu muito nos últimos anos, sobretudo com a participação da Rússia na Copa do Mundo de 2011 (de rúgbi de 15 jogadores). Poucos curiosos foram ao estádio, mesmo com ingressos a bons preços. A Copa do Mundo de Sevens parece não ter servido para levar o rúgbi para além do público já existente. E, sem jamais ter recebido uma etapa do Circuito Mundial de Sevens, Moscou não reproduziu nas arquibancadas pouco atmosféricas - 10 ou 15 mil pessoas em um lugar que comporta 80 mil é a receita para um ambiente nada animador - o clima festivo característico dos torneios de sevens. Em todo o mundo, ao longo das etapas do Circuito Mundial - a Série Mundial de Sevens - torcedores fantasiados, "comes e bebes" (ou mais "bebes" que "comes"), muita música, dança nas arquibancadas e descontração fazem dos estádios festas ao ar livre, consolidando uma cultura distinta para os torneios de sevens, que mais parecem baladas contornando as partidas de rúgbi. Nesses eventos, os jogos e a festa se confundem, com um parecendo complementar o outro de forma simbiótica, com o nível de atenção dos torcedores para as partidas variando muito ao longo das longos horas que duram os torneios de sevens - em geral, cada um dos 2 ou 3 dias de jogos tem de 8 a 12 horas initerruptas de partidas.

Em Moscou, no entanto, a cultura típica dos eventos de sevens, o ato de torcedor misturado à confraternização entre os torcedores se perdeu. A quase ausência de torcedores fantasiados sugeria isso. A Copa do Mundo de Sevens foi pasteurizada, tornou-se "mais um evento esportivo", com o torcedor-consumidor do espetáculo, sentado em suas cadeiras, predominando. A distância daquela práxis criada ao longo de mais de uma década de existência do Circuito Mundial e de mais de um século de torneios de sevens foi revelada no Luzhniki. Ali explicitou-se quão desafiador é levar um torneio tão grande de um esporte tão complexo em tradições a um espaço novo, pouco afeito a essas tradições longamente construidas por seus principais protagonistas. Evidentemente, os rugbiers russos têm suas próprias formas de lidar com o esporte, mas o contraste do que foi encontrado em Moscou e do que é visto nos demais torneios de expressão do sevens mundial serve de base para a reflexão.

Conversando com Maxim, jornalista russo de Krasnoyarsk, cidade siberiana considerada a capital do rúgbi na Rússia, fui apresentado a uma ideia muito interessante que pode explicar um pouco a presença do público. Maxim ressaltou o fato do rúgbi não ser um "esporte da capital". Isto é, apesar de contar com três clubes profissionais de rúgbi, Moscou não é protagonista nesse esporte. A cidade-bastião do rúgbi é Krasnoyarsk, na Sibéria, onde, segundo Maxim, vive-se apaixonadamente o rúgbi. Para os Moscovita, de acordo com meu amigo, os "esportes políticos" são os que valem maior atenção. Isto é, os esportes que a Rússia é forte e que têm em Moscou um importante centro de poder esportivo, notadamente o futebol e o hóquei no gelo, mas também esporte de longa tradição olímpica, como o basquete e o vôlei. Ou mesmo o atletismo, que levou um público visivelmente maior do que o rúgbi poucos dias depois ao Luzhniki, em um evento que realmente se pareceu com um Mundial - pois era um Mundial de um esporte valorizado na vida esportiva da cidade.

Desafio semelhante se dará no Rio de Janeiro, em 2016, quando o rúgbi sevens aparecerá pela primeira vez nos Jogos Olímpicos. Como o brasileiro não afeito ao rúgbi se relacionará com aquele que será considerado o maior momento da história do sevens mundial? O torcedor-consumidor "bem-comportado" poderá novamente voltar a ser a regra nas arquibancadas.

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