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LUDENS

Para quem? Os movimentos sociais nas cidades brasileiras e a Copa do Mundo (por Andre Feres)

Desde o anúncio, em 30 de Outubro de 2007, do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, o país ingressou em estado de alvoroço permanente. O assunto desperta empolgação e expectativa em muitos, mas também vêm despertando, em um número cada vez maior de pessoas, revolta e indignação, conforme correm os trâmites que envolvem a realização do evento.

Remoção de favelas, desvio de verba pública, falta de transparência e de diálogo com a população são apenas alguns dos temas que tornam a Copa no Brasil digna de desconfiança e, consequentemente, motivos suficientes para uma mobilização que busque apurar condutas inaceitáveis por parte dos órgãos competentes – notadamente os de caráter estatal – e reivindicar melhorias, segundo pautas sociais, que vão muito além da construção de novos e dispendiosos estádios. Foi a partir desta constatação que surgiram, em cada uma das doze cidades que sediaram o torneio no próximo ano, os Comitês Populares da Copa.


Cada comitê busca, através da integração de ações de rua, debates envolvendo moradores de áreas afetadas diretamente pelas obras da Copa e acadêmicos, além da elaboração e veiculação de material impresso, montar uma agenda crítica em oposição à agenda oficial fixada pela organização oficial do evento. Participam destes coletivos, independente de afiliação ou orientação políticas, quaisquer pessoas interessadas e identificadas com a causa; ainda assim, é fato que muitos dos participantes estejam também engajados em outras frentes políticas, procurando vincular as pautas destas àquelas estabelecidas pelos comitês.

 

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Manifestações em Belo Horizonte, em Junho de 2013. Retirado de http://ilyabrotzky.com/2013/08/sim-vai-ter-copa-why-brazilians-should-want-to-host-the-world-cup-in-brazil-2/ (créditos: Fernando H.C. Oliveira)

 

Trata-se, sobremaneira, de um movimento essencialmente urbano, nascido a partir de uma reivindicação aparentemente pontual e que, no entanto, passou a ganhar outras proporções, principalmente após o histórico mês de Junho de 2013 no Brasil. Ainda está em gestação uma explicação que dê conta de esmiuçar os significados das manifestações ocorridas recentemente, até pelo próprio processo ainda estar em curso, apesar de agora com menor intensidade, mas é difícil não enxergar que o que está em jogo é uma disputa política em torno do modelo de cidade atual, em acentuada crise. Assim como o Movimento Passe Livre, os Comitês Populares da Copa passaram, embora em proporções menores, a assumir um papel central na mobilização popular que tomou as ruas das principais cidades brasileiras. A mídia de massa também vem mostrando seu potencial de construir e destruir ideologias e discursos em um momento agudo como este, ao polarizar heróis de um lado e vilões do outro, reduzindo a história sob uma capa de apologia à uma pretensa imparcialidade.É preciso estar atento. Refletir sob uma perspectiva crítica a atual conjuntura, tendo em vista os novos atores que entraram em cena e definir ações concretas que nos levem a implantar novas experiências políticas, adequadas às demandas reais de nosso tempo, trazidas à tona pela onda de manifestações ocorridas e ocorrentes.

Neste sentido, não há como negar que uma das várias pautas a serem discutidas é a realização da Copa do Mundo de futebol, principalmente no que toca às condutas escusas da governança urbana das cidades-sede; há uma evidente contradição que se evidencia na prioridade de investimentos dada às obras ligadas ao evento e na forma como são conduzidas as mesmas, em detrimento de pautas sociais, mais antigas e relevantes, pois não se restringem a um evento de um mês de duração.

A integração, em escala nacional, dos comitês, a definição, com clareza, de pautas e ações que levem em conta a atualidade de tais reflexões e, acima de tudo, a coesão e compromisso políticos dos movimentos sociais tornam-se portanto questões fundamentais para prosseguir e aprimorar o debate que já se iniciou nas ruas. O pontapé inicial já foi dado, mas ainda há uma longa partida a ser disputada e as regras do jogo não são nem claras nem justas.

 

André Feres é graduando do curso de Geografia da Universidade de São Paulo. Atua como monitor-pesquisador do núcleo Ludens desde o início de 2012, integrando o projeto Brasil na Arquibancada.

 

 

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